UNIDADE II - Entender o papel da Universidade no Ecossistema Empreendedor.

 Universidade e Extensão: O elo com o ecossistema empreendedor através da inovação social

    Atualmente, a universidade assume um papel estratégico no ecossistema empreendedor, especialmente ao ampliar a sua atuação para além do ensino e da pesquisa, através da chamada “terceira missão”: a extensão universitária. Perfaz uma via essencial de interação entre universidade e sociedade, mediando saberes e práticas com potencial de transformação social e de estímulo ao empreendedorismo em desafiadores contextos.

    O estudo de Klaumann e Tatsch (2023), desenvolvido na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, evidencia que a extensão universitária, ao aproximar-se das comunidades, transmite conhecimento, mas também coproduz soluções para problemas sociais, mobilizando recursos humanos e tecnológicos que podem gerar inovações sociais com impacto direto no território. Esta atuação não é isolada: integra um ecossistema de inovação onde múltiplos atores — como organizações sociais, movimentos comunitários e, pontualmente, empresas — articulam-se em rede para experimentar, prototipar e difundir práticas inovadoras voltadas ao bem-estar coletivo.

    Em Portugal, esta lógica manifesta-se em projetos como o INOV C – Ecossistema de Inovação da Região Centro, que envolve instituições como a Universidade de Coimbra e a Universidade de Aveiro, articulando centros de investigação, incubadoras, empresas e comunidades locais para promover empreendedorismo baseado no conhecimento. Também, o UPTEC – Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto, integra a extensão universitária com a incubação de startups e projetos com impacto social, que acolhem iniciativas que vão desde as tecnologias digitais até soluções para a transição ecológica. Também, a Universidade Nova de Lisboa, com o seu programa Nova SBE Leadership for Impact, tem promovido ações de extensão que aproximam os estudantes e investigadores de causas sociais, através de parcerias com organizações do terceiro setor.

    Neste contexto, o papel empreendedor da universidade revela-se na sua capacidade de facilitar a criação de redes, empoderar atores locais, e fomentar o desenvolvimento de competências para a autonomia social e económica. A atuação universitária como “provedora de soluções” (Benneworth, 2013) ou como “parceira estratégica” reflete-se em projetos de extensão que não apenas ensinam, mas aprendem com a comunidade, favorecendo a transdisciplinaridade e a co-criação — dois pilares da inovação social sustentável (Moulaert & MacCallum, 2019).

O estudo revela também tensões importantes: apesar de reconhecer a relevância da extensão na construção de inovações sociais, muitas ações ainda reproduzem uma lógica “ofertista”, na qual a universidade oferece soluções de forma verticalizada, sem assegurar, de forma efetiva, a participação ativa e horizontal da comunidade no processo de decisão. Tal configuração limita o potencial transformador da extensão e distancia a universidade da lógica colaborativa que caracteriza os ecossistemas de inovação mais resilientes.

    Para que a universidade cumpra plenamente seu papel no ecossistema empreendedor, é necessário ir além da prestação de serviços. Implica criar contextos relacionais baseados em confiança, corresponsabilidade e diálogo entre saberes, nos quais o conhecimento académico se articula com o conhecimento situado, produzido pelas comunidades. Como propõe Mulgan et al. (2007), a inovação social exige a convergência entre as “abelhas” (portadoras de novas ideias) e as “árvores” (organizações com capacidade de escalar), papel que as universidades podem exercer de forma única, ao mesmo tempo como catalisadoras, mediadoras e incubadoras de soluções sociais.

    Em suma, a extensão universitária configura-se como uma ponte poderosa entre universidade e sociedade, e o seu fortalecimento é fundamental para o amadurecimento de um ecossistema empreendedor mais inclusivo, orientado não apenas ao crescimento económico, mas à transformação social sustentável. Para isso, é essencial que as universidades assumam uma postura com mais diálogo, reconhecendo os saberes comunitários como legítimos, e operem numa lógica de co-desenho das soluções — passando de transmissoras a co-autoras da mudança social.

 

Referências bibliográficas

 

Benneworth, P. (2013). University engagement with socially excluded communities. In P. Benneworth (Ed.), University Engagement with Socially Excluded Communities (pp. 1–29). Springer. https://doi.org/10.1007/978-94-007-4875-0_1

Klaumann, C., & Tatsch, A. L. (2023). A Extensão Universitária como um caminho para a Inovação Social. UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Moulaert, F., & MacCallum, D. (2019). Advanced Introduction to Social Innovation. Edward Elgar Publishing.

Mulgan, G., Tucker, S., Ali, R., & Sanders, B. (2007). Social innovation: What it is, why it matters and how it can be accelerated. The Young Foundation.

UPTEC. (n.d.). Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto. https://uptec.up.pt

Nova SBE. (n.d.). Leadership for Impact. https://www2.novasbe.unl.pt/en/about-us/leadership-for-impact/

INOV C. (n.d.). Ecossistema de Inovação da Região Centro. https://www.inovc.pt

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